Outro dia me deparei com uma discussão que me fez repensar uma palavra que eu mesma já havia usado sem refletir muito sobre ela: “atípico”.
A conversa começou de forma simples. Falávamos sobre crianças com deficiência e sobre as dificuldades enfrentadas por suas famílias. Em determinado momento, alguém levantou uma pergunta que me fez parar:
Por que chamamos algumas crianças de “atípicas”?
À primeira vista, a palavra parece inofensiva. Muitas vezes ela é usada com boa intenção, para dar visibilidade a desafios específicos e facilitar a identificação de políticas públicas, grupos de apoio e direitos.
Mas a pergunta continuou ecoando.
Se uma criança tem deficiência, ela é frequentemente chamada de criança atípica. Sua mãe passa a ser conhecida como mãe atípica. Sua família, uma família atípica.
Por outro lado, não costumamos falar em criança típica ou atípica quando nos referimos à cor da pele, à origem familiar, à religião, à personalidade ou a tantas outras características humanas.
O que faz com que algumas diferenças sejam vistas como parte natural da diversidade humana, enquanto outras recebem um rótulo próprio?
Não tenho a pretensão de responder essa pergunta de forma definitiva.
Mas ela me fez perceber algo importante: as palavras não servem apenas para descrever a realidade. Elas também ajudam a construir a forma como enxergamos as pessoas.
No Direito, essa discussão não é novidade.
Durante décadas, expressões consideradas normais em determinado período foram sendo abandonadas à medida que a sociedade compreendia melhor seus efeitos. A linguagem jurídica, administrativa e social passou por inúmeras transformações para substituir termos que reforçavam preconceitos ou reduziam indivíduos a uma única característica.
Não se trata de mera preocupação com palavras bonitas.
Trata-se de reconhecer que a linguagem influencia a forma como distribuímos respeito, pertencimento e dignidade.
Talvez seja por isso que tantas pessoas com deficiência defendam que sua luta não é para serem colocadas em categorias especiais, mas para serem reconhecidas como parte da própria sociedade.
Não como exceção.
Não como um grupo à parte.
Não como uma nota de rodapé da experiência humana.
Apenas como pessoas.
Pessoas que podem precisar de adaptações, acessibilidade e proteção jurídica específica, assim como tantas outras podem necessitar de diferentes formas de apoio ao longo da vida.
No fundo, talvez a questão não seja se determinada palavra está certa ou errada.
Talvez a pergunta mais importante seja outra:
Quando usamos um rótulo, estamos ajudando alguém a ser visto ou estamos fazendo com que ele seja visto apenas através daquele rótulo?
Nem sempre a resposta será simples.
Mas talvez valha a pena continuar fazendo a pergunta.
